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Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Em memória da minha gata Branquinha...

 

Era uma gata bebé, quando o meu melhor amigo (não sabendo como me consolar) ma deu, no dia em que o meu pai faleceu. Tinha-a encontrado perdida ou abandonada (disse ele - apesar de eu sempre ter duvidado. O João nem sempre contava tudo...). Era linda... toda branca e dei-lhe o nome de Branquinha. Depois mudou de côr: só a barriguinha continuou imaculadamente branca. Tornou-se cinzenta, de vários cambiantes. mas sempre e cada vez mais linda.".Onde ela ficava melhor era sentada na cama, olhando para fora. As suas duas patas dianteiras, de côr creme e ligeiramente riscadas, ficavam direitas lado a lado, com as extremidades prateadas. As orelhas, levemente franjadas de um branco que parecia prata, levantavam-se e mexiam-se, para trás, para diante, ouvindo e sentindo. O focinho virava-se, um pouco, a cada nova sensação, alerta. A cauda mexia, noutra dimensão,como se a ponta estivesse captando mensagens que os seus outros orgãos não captavam. Ela sentava-se, composta, luminosa, olhando, sentindo, cheirando, respirando, toda ela, pêlo, bigodes, orelhas - tudo numa vibração delicada. Se um peixe é o movimento da água corporizado, tornado forma, então esta gata era um diagrama e um padrão de ar subtil.

Oh gata; dizia eu, ou entoava: Gata boniiiita! Gata liiiinda! Gata deliciosa! Gata exótica! Gata milagrosa. Gata preciosa! Gata, gata, gata, gata.

Ela virava a cabeça, sedosamente arrogante e semicerrava os olhos a cada nome de louvor, um de cada vez. E depois, quando eu acabava, bocejava, deliberadamente, afectada, mostrando uma boca de um rosa de gelado e uma língua curva e rosada. Deixava-se cair, com graça, exibindo a barriguita branca, exigindo festas...

Ou, deliberadamente, agachava-se e fascinava-me com os olhos. Eu olhava para eles, desenhados a lápis preto, na sua forma amendoada, com outro traço em volta de côr creme.

Sob cada olho, uma pincelada escura. Verdes, olhos verdes; mas na sombra, de um dourado escuro - uma gata de olhos escuros. Mas na luz, verdes, um esmeralda fresco e claro. Atrás dos globos transparentes dos olhos, pedaços de asa de borboleta com filamentos brilhantes. Asas como joias - a essência da asa.

Um insecto em forma de folha não se distingue de uma folha - à primeira vista. Mas, olhando de perto: a cópia da folha é mais folha do que a folha - com vincos e veios, delicado como se fosse o trabalho de um ourives, mas de um ourives um pouco irónico, de tal forma que o insecto está no limiar da troça. Vejam, diz o insecto-folha, a imitação: alguma vez uma folha foi tão refinada quanto eu? Vejam, mesmo naquilo em que copiei as imperfeições da folha, sou perfeito. Querem voltar a olhar para uma folha, depois de me terem visto, o artífice?

Nos olhos da gata cinzenta jazia o resplendor verde da asa de uma borboleta de jade, como se um artista tivesse dito: O que pode ser tão gracioso, tão delicado como um gato? O que pode ser mais naturalmente criatura do ar? Que ser aéreo tem afinidade com o gato? A borboleta, a borboleta evidentemente! E ali, no fundo dos olhos da gata jazia este pensamento, apenas sugerido, com um semi-riso; escondido atrás da franja das pestanas, atrás da fina pálpebra interior e das evasões de coqueteria felina.

Gata cinzenta, perfeita, refinada, uma rainha; gata cinzenta com as suas insinuações de leopardo e cobra;sugestões de borboleta e mocho; uma miniatura de leão com garras de aço para matar; gata cinzenta cheia de segredos, afinidades, caprichos, ternuras, mistérios- gata cinzenta, Saudade! Branquinha!"

 

 

 

ZeliaN

 

sinto-me: Tão saudosa
publicado por mulheresforadehoras às 23:21
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1 comentário:
De Carla Marinho a 30 de Julho de 2010 às 15:02
A minha gata Menina é de feitio parecido com a Branquinha, sim porque os gatos têm feitio, mau humor, birra, fúrias e mimo quando querem e quando nós precisamos. Agora na companhia do Noddy (um gatinho muito especial) de olhinhos marotos mantenho a minha posição... Quanto à afirmação que, para mim, virou moda: - Não gosto de gatos! São falsos! Pois saibam que se prevê a falcidade dos gatos, eles mostram-na às claras, já nos humanos...É viver com ela no oculto, pois não há olhar semicerrado, orelhas baixas ou cauda irrequieta que se observe!!!

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